Um amor amaldiçoado PARTE 6.
Uma jovem que aprendeu o ritmo.
Quando Gil entrou no ensino fundamental, já não era mais surpresa para ninguém. Era a aluna mais atenta da sala, rápida nas respostas, organizada demais para a idade. A escola se ajustou à rotina dela: estudava pela manhã, e à tarde a van da produção a buscava no portão. À noite, voltava para casa cansada, mas ainda com energia para repetir falas baixinho, sentada à mesa, enquanto o pai e os irmãos observavam em silêncio. Durante a semana, o tempo era cronometrado. No sábado de manhã, estudava quase o dia inteiro com a mãe, revisando matérias, lendo em voz alta, treinando concentração. No fim da tarde, finalmente respirava: saía com o pai e os irmãos, caminhava, ria, ainda sem poder andar sozinha. Isso a revoltava, mas ela engolia. No domingo, era da família. Sempre foi. A produção era rápida, e Gil também. Gravava com facilidade, decorava textos com naturalidade, aprendia observando os outros atores. Em poucos anos, já tinha feito séries, filmes, entrevistas. Passava pela televisão e via a si mesma. No cinema, sentava quieta quando aparecia na tela. Um dia, alguém mostrou seu nome na internet. Depois, outro dia, alguém disse que ela já tinha uma página própria. Gil sentiu orgulho. Não comentou. Mesmo assim, havia algo que nunca dizia. Pensava na mãe com frequência, mas guardava aquilo só para si. Continuava. Estudava. Produzia. Cuidava da aparência. Crescia rápido demais por fora, mas por dentro permanecia contida. Aos quinze anos, no ensino médio, tudo mudou de tom. Gil já era bonita, famosa, conhecida. Os rapazes se aproximavam com facilidade. As amigas começaram a sentir raiva — ninguém reparava nelas quando Gil estava por perto. Ela tentou namorar, mas nada durava. Relações rasas, confusas, infantis. Com Joana, tentou algo diferente. Um namoro estranho, quase inocente demais: mãos dadas, abraços longos, nenhuma intimidade real. Virou motivo de piada. As famílias observaram sem interferir. Gil não se importou. Aquilo não era amor, era tentativa. Ao mesmo tempo, começou a lutar por mais liberdade. Queria sair sozinha, provar que já tinha idade. O pai resistiu, mas cedeu aos poucos. Gil passou a sair com os amigos, ainda controlada, ainda observada. A rotina continuava pesada, apertada, exata. Estudo, produção, casa. Semana após semana. Ela estava crescendo. E sem perceber, estava se afastando de tudo que era simples.
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