Um amor amaldiçoado PARTE 10.

 

A gravidez, nasce Gilzinha. 


Gil não soube que estava grávida. A rotina era intensa demais para perceber sinais claros: gravações, ensaios, deslocamentos, estudos comprimidos em horários improváveis. O corpo avisava em pequenos desmaios, náuseas rápidas, lapsos de força que ela ignorava como cansaço comum de produção. A confirmação veio tarde, quase por acaso, depois de um mal-estar público. O choque não foi apenas o da gravidez — foi o da interrupção. Pela primeira vez, o ritmo que sempre a carregou parou. Eric reagiu com medo e silêncio; Gil, com negação e uma promessa improvisada de que daria conta de tudo. O nascimento de Gilzinha aconteceu fora de plano, no limite do improviso. Uma noite comum virou emergência. Entre o susto e o acolhimento de estranhos, Gil segurou a filha pela primeira vez como quem segura o próprio fôlego. Ali nasceu também uma culpa antiga: a de tentar ser tudo ao mesmo tempo. Os meses seguintes foram uma coreografia impossível. Gil voltou à produção cedo demais, levando o trabalho para casa e a casa para o trabalho. Aprendeu a trocar figurino e fralda com a mesma rapidez. Eric tentava acompanhar, mas a distância crescia. O casal passou a discutir em silêncios. Gilzinha cresceu sob luzes e agendas. Era uma criança observadora, espelhada nos gestos da mãe. Gil, sem perceber, passou a moldar a filha à própria imagem: disciplina excessiva, cobrança silenciosa, expectativas que não cabiam em uma infância. Os primeiros conflitos surgiram cedo. Eric questionava o ritmo, pedia pausa. Gil via nisso uma ameaça à ordem que a mantinha de pé. A casa virou extensão do estúdio. A filha, extensão da mãe. E o amor começou a confundir cuidado com controle. Quando Gilzinha começou a reagir — pequenos afastamentos, perguntas incômodas, medo de errar — o atrito ficou visível. Eric tentou intervir. Gil se fechou. O que era tentativa de proteger virou tensão constante. É aqui que o eixo da história muda. A maternidade, que parecia um ponto de equilíbrio, passa a ser o gatilho. O cotidiano se torna denso. As relações, frágeis. O terreno está pronto para o terror psicológico que virá.

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