Um amor amaldiçoado PARTE 4.

 

O pai demorou dois dias para ligar.

O papelzinho ainda estava dobrado na mochila de Gil, amassado pelo vai-e-volta da escola, como se pudesse desaparecer se fosse ignorado. Quando o telefone tocou na cozinha, Gil estava sentada no chão desenhando. Ela não ouviu a conversa inteira, só pedaços: o nome da produtora, horários, testes, “ela tem só cinco anos”, silêncio, depois um suspiro longo.

À noite, o pai se sentou ao lado dela na cama.

— Não é brincadeira, Gil. Se você for… muda tudo.

Ela assentiu com a cabeça antes mesmo de entender completamente o que aquilo significava.

No dia seguinte, Gil foi à escola como sempre. Brincou no recreio, correu, riu alto. Joana puxou a mão dela para o canto do pátio, falando do fim de semana, das brincadeiras que fariam depois da aula. Gil tentou responder, mas algo já estava diferente. Quando o sinal tocou, em vez de ir para casa, o pai a esperava no portão.

Joana acenou de longe, confusa.

— Você não vem?

Gil acenou de volta, sem saber explicar. Foi a primeira vez que não voltou andando com os amigos.

A produtora ficava em um prédio grande, frio, com corredores longos e cheiros estranhos. Gil entrou de mãos dadas com o pai, olhando tudo em silêncio. Havia adultos por todos os lados. Maquiadores, assistentes, atores mais velhos andando rápido, falando alto, rindo de coisas que ela não entendia.

Ela se sentiu pequena.

Uma mulher se abaixou até ficar da altura dela, sorriu profissionalmente e disse que ela era linda. Gil sorriu de volta, mas não sabia o que fazer com aquilo. Ninguém ali queria brincar. Ninguém perguntava do que ela gostava. Todos perguntavam se ela sabia repetir frases.

No primeiro teste, Gil travou. Olhou para o papel, esqueceu as palavras. O diretor esperou. O silêncio pesou. O pai observava de longe, tenso. Gil sentiu o rosto queimar. Então respirou fundo e falou como falava quando contava histórias para a mãe. Não perfeito. Não técnico. Mas verdadeiro.

Foi o suficiente.

Em casa, os dias mudaram rápido. Gil ia à escola de manhã e, à tarde, não corria mais na rua. Sentava na mesa da cozinha com folhas de papel, tentando decorar falas que não entendia direito. Às vezes errava, às vezes chorava de cansaço. O pai ajudava como podia. Os irmãos observavam em silêncio, sem saber se sentiam orgulho ou medo.

Joana passou a vê-la menos.

Quando se encontravam, Gil estava sempre com pressa. Ou cansada. Ou pensando no texto do dia seguinte. Não era escolha. Era adaptação.

Na produtora, Gil aprendeu a esperar em silêncio. Aprendeu a repetir emoções que não eram dela. Aprendeu que errar custava tempo. Que tempo custava dinheiro. Que elogios vinham rápido, mas iam embora mais rápido ainda.

Ela cresceu assim.

Não de um dia para o outro, mas aos poucos. Cresceu aprendendo a observar adultos. Cresceu entendendo que atenção vinha com desempenho. Cresceu sentindo falta da mãe em momentos que ninguém via. Cresceu percebendo que, enquanto todos diziam que ela estava vivendo um sonho, ela só estava tentando acompanhar.

E, sem perceber, Gil começou a se afastar da infância — não por escolha, mas porque não havia mais espaço para ela.

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