Um amor amaldiçoado. PARTE 3

 


Gil tinha cinco anos quando aprendeu, sem saber, a continuar viva.

A morte da mãe não chegou com explicação nem despedida. Chegou como silêncio. Um silêncio estranho demais para alguém tão pequena. A casa continuou a mesma, os móveis no lugar, os brinquedos espalhados, mas o centro tinha sumido. Gil não entendia o que era morrer, só entendia que a mãe não voltava. Nos primeiros dias, ela ficou quieta. Depois, começou a fazer algo que ninguém pediu: dançar.

Dançava na sala, dançava no quarto, dançava no quintal. Não era coreografia, era impulso. Girava, ria sozinha, fazia caretas, inventava passos. Era engraçada sem tentar ser. As pessoas diziam que aquilo era alegria, mas quem olhava com atenção via outra coisa: era sobrevivência. Gil dançava para não afundar. Dançava porque o corpo ainda sabia seguir, mesmo quando a cabeça não sabia.

Na escola, os colegas começaram a notar. A menina que tinha perdido a mãe agora fazia todos rirem no recreio. Não porque contava piadas, mas porque se movia como se o mundo ainda fosse leve. As professoras comentavam. Os pais dos colegas comentavam. A história da menina engraçada começou a correr solta, passando de boca em boca, até sair do lugar onde deveria ficar.

Foi numa saída de aula comum, daquelas sem nada especial, que um homem apareceu.

Ele não parecia estranho. Usava roupa simples, falava calmo, não chegou assustando. Pediu para conversar com o pai, mas acabou falando com Gil primeiro. Perguntou se ela gostava de dançar. Gil respondeu que sim, como se fosse óbvio. Perguntou se ela gostava de fazer as pessoas rirem. Ela deu de ombros. Disse que fazia sem perceber.

-Então estamos em entrevista ao vivo dessa brilhante garotinha com esse talento e faço aqui o convite de atuar em nossa produção, creio que não vai atrapalhar seus dias não? Bom aqui está meu contato converse com sua família e me dei uma resposta o tempo que precisar. E sem querer atrapalhar terminamos aqui nossa reportagem. o homem dá o contato na mão de gill que fica imóvel sem reação.

Os amigos ficaram em volta. Incentivaram. Riram. Disseram que ela tinha que aceitar, mesmo sem saber o que “aceitar” significava direito, já a animação deles terem aparecido na televisão foi incrível. Gil segurou aquele papel como quem segura algo importante, mesmo sem entender por quê. No caminho de volta Joana sem reação incentiva Gill a aceitar elogiando o potencial dela. 

Em casa, ela contou primeiro para o pai. Depois para os irmãos. Falou sem exagero, como se fosse só mais uma coisa que tinha acontecido no dia. O pai ouviu em silêncio. Olhou para o papel. Pensou na idade da filha. Pensou na mãe que não estava mais ali para opinar. Pensou no medo de expor uma criança tão nova. Pensou também na filha que dançava sozinha pela casa desde o enterro.

Gil, sentada no sofá, balançava as pernas. Não pedia. Não implorava. Só esperava.

Ela não sabia explicar, mas sentia que aquele convite não era fuga. Era continuação. Como se, de algum jeito torto, continuar sendo vista fosse a forma que encontrou de não desaparecer junto com a mãe.

O pai respirou fundo. Disse que ia pensar. Gil assentiu.

Naquela noite, ela dançou de novo.

Não porque alguém mandou.
Mas porque, aos cinco anos, era tudo o que ela sabia fazer para seguir existindo.

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