Um zumbido estranho ouvido em marte pela sonda InSight, o que será?

 



Debaixo da sua superfície gelada e poeirenta, Marte está a zumbir. Este som silencioso e constante pulsa periodicamente com o rugir dos sismos que se fazem sentir por todo o planeta, mas a fonte desta música alienígena permanece desconhecida.


Este zumbido marciano é apenas um de vários mistérios detetados pela sonda InSight da NASA. As observações, descritas num conjunto de cinco estudos publicados na Nature Geoscience e Nature Communications, oferece um vislumbre sobre a atividade surpreendente que acontece por baixo e por cima da superfície do planeta vermelho.

A sonda InSight aterrou em Marte em novembro de 2018, depois uma descida difícil até uma extensão plana e inexpressiva perto do equador do planeta. Desde então, a sonda tem usado um sismómetro extremamente sensível, e uma série de instrumentos adicionais, para fazer leituras que estão a ajudar os cientistas a desvendar a atividade geológica e a estrutura interna de Marte.

“É um alívio enorme poder finalmente levantar-me e gritar, vejam todas estas coisas incríveis que estamos a observar”, diz Bruce Banerdt, investigador principal da missão InSight.

Para além do zumbido estranho, o último conjunto de dados da InSight também descreve a primeira zona de falhas ativa descoberta em Marte, os padrões e pulsações dos campos magnéticos modernos do planeta e indícios sobre o passado magnético do mesmo. Todas juntas, estas informações recolhidas em Marte são vitais para descobrir como se formam todos os planetas rochosos e como evoluem ao longo do tempo.

“Não podemos apenas criar um modelo baseado na Terra; precisamos de mais dados”, diz Suzanne Smrekar, vice-investigadora principal da missão InSight. “É muito entusiasmante poder observar algumas destas coisas e tentar compreender Marte.”

Sismos de origem peculiar
Um dos principais objetivos da InSight é medir a atividade sísmica de Marte. Os primeiros meses à escuta de tremores foram estranhamente silenciosos. Mas, para satisfação dos sismólogos na Terra, no dia 6 de abril de 2019, o primeiro sismo detetado ressoou pelo planeta vermelho.

E desde essa primeira deteção, os sismos marcianos nunca mais pararam, com mais de 450 registados até agora, diz Banerdt. Apesar de este nível de atividade não ser surpreendente, existem pequenos eventos que parecem estar a ocorrer com mais frequência. O aumento destes tremores mais pequenos pode ser um efeito sazonal, mas como esta atividade só começou a ser registada recentemente, estamos perante outro dos muitos mistérios que a equipa ainda está a tentar desvendar.

Os cientistas também não sabem exatamente de onde vêm todos estes “martemotos”. Na Terra, a superfície do planeta treme frequentemente devido ao movimento lento das placas tectónicas. A tensão acumula-se na crosta e é libertada repentinamente sob a forma de um terramoto. Mas Marte não tem placas tectónicas globais, pelo que os geólogos estão a tentar encontrar fontes alternativas.

Dois dos tremores detetados pela InSight estão a ajudar os cientistas a encontrar respostas. Ambos os sismos foram ruidosos, com magnitudes a rondar os 3 e 4, e isso permitiu aos investigadores rastrear os seus pontos de origem – uma série de fendas profundas na superfície de Marte conhecida por Cerberus Fossae, formada há 10 milhões de anos ou menos.

No passado do planeta, estas fissuras na superfície expeliam enormes fluxos de lava e de água, e alguns destes fluidos ainda podem estar no subsolo. O arrefecimento e contração das bolsas de magma e o movimento de rocha fundida ou até de água na subsuperfície são possíveis fontes para ambos os tremores marcianos, diz Smrekar. (Aprenda mais sobre a primeira zona de falhas ativa encontrada em Marte.)

Para identificar com precisão a causa destes sismos, e para ter uma ideia mais refinada do que está a acontecer no subsolo, os cientistas precisam de detetar mais tremores.

“Adorávamos observar um sismo de magnitude 5”, diz Smrekar. “É um jogo de paciência.”

Música marciana interminável.
InSight também detetou um sinal sísmico misterioso que está constantemente a zunir no som de fundo dos tremores.

A Terra tem muitos zumbidos constantes, o mais prevalente vem da agitação dos oceanos e do impacto das ondas na costa. Mas a 2.4 hertz, o zumbido de Marte é um tom acima de muitos dos zumbidos naturais da Terra, que tendem a cair abaixo de 1 hertz, diz Stephen Hicks, sismólogo no Imperial College de Londres que não participou nos novos estudos.

As análises sugerem que o zumbido de Marte não está relacionado com os ventos que fustigam o planeta, e parece aumentar com o tremor dos sismos distantes. O efeito é o mesmo que fazer tocar uma campainha com um grito, explica Joshua Carmichael, geofísico quantitativo no Laboratório Nacional de Los Alamos. As nossas vozes têm uma mistura de frequências e, se alguma corresponder à ressonância da campainha, os nossos gritos podem fazer com que esta toque.

fonte:www.natgeo.pt

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